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O que um velho Sushiman pode ensinar sobre trabalho, vocação e empreendedorismo.

Jiro

 

 

 

 

 

 

 

Gosto do Japão e da sua cultura. Parte desse gosto é porque lá as coisas são ao contrário. A leitura é da direita pra esquerda. O volante dos carros é no lado direito. Aqui é dia, lá é noite.

A forma como eles encaram a vida também é meio às avessas. Tudo o que a nós, ocidentais, enxergamos como algo ruim para eles pode, justamente, ser uma virtude.

O documentário de David Gelb, Jiro Dreams of Sushi (tem no Netflix), conta a história da vida do homem considerado o melhor sushiman do mundo. O nome dele é Jiro Ono e, à época do filme, tinha 85 anos. Seu restaurante, o Sukiyabashi Jiro, tem apenas 10 lugares, fica dentro de uma estação de metrô em Tóquio e é condecorado com três estrelas no conceituado Guia Michelin.

O filme é recheado de boas lições que acabam, sem querer, ensinando um monte de coisas sobre trabalho, vocação e empreendedorismo, mesmo que de um jeito totalmente não ortodoxo.

Não é vergonha ter reverência ao trabalho.

Somos de uma cultura que adora as sextas-feiras, reverência as férias, idolatra folgas e onde trabalho é sinônimo de chateação. Um mal necessário.

Olha que engraçado: o Jiro detesta feriados.

Segundo ele não existe nada mais entediante do que ficar longe do seu balcão.

Jiro não é workaholic.

Na realidade ele tem uma extrema reverência ao trabalho. E isso não tem a ver com vaidade, dinheiro ou poder.

O fato é que ele desenvolveu um amor tão profundo e verdadeiro pelo seu ofício, que ser sushiman é parte de quem ele é.

Ter orgulho do trabalho é ter orgulho de si mesmo.

Tem certeza mesmo?

Os dois filhos de Jiro também são sushiman, apesar de o pai nunca ter obrigado os filhos a seguirem a sua profissão.

Os filhos de Jiro demoraram 10 anos para terem a permissão para preparar e servir seus primeiros sushis aos clientes do restaurante do pai. Sim, infindáveis10 anos. Durante esse tempo trabalharam como assistentes observando pacientemente o pai comprar, preparar e servir.

Ao observar o pai por 10 anos os filhos aprenderam muitas coisas. No melhor estilo Senhor Miyagi aprenderam que a paciência é uma virtude e que a prática leva à perfeição.

Porém, eles aprenderam uma lição muito mais valiosa nesses anos de espera.

Eles construíram dentro deles a certeza de suas vocações.

Só quem trabalha 10 anos como assistente tem certeza de que seguirá essa carreira para o resto da vida.

Vá e nunca mais volte.

Você já imaginou um pai dizendo isso a um filho quando esse resolve deixar a casa da família?

Jiro confessa que essa foi melhor coisa que o seu pai disse a ele quando ele resolveu sair de casa.

Foi muito duro não poder regressar, mas Jiro sabia que essa lição faria com que ele encarasse a vida de uma maneira totalmente diferente. Era matar ou morrer.

Esse acontecimento tem uma ligação profunda com o fato de Jiro ter se tornado o melhor sushiman do mundo. Isso fez com que ele entrasse na vida pra ganhar. Ele não tinha outra opção.

Fico imaginando como eu entraria num negócio ou numa empresa, se soubesse que não teria outra opção que não fosse a de prosperar.

Imagina a força interna que se cria quando se sabe que não terá mais a casa do pai para retornar se tudo der errado.

As pessoas querem ser bem sucedidas sem pagar o preço. Querem ser o Jiro sendo servidas pela mamãe no sofá da sala.

O Jiro nos ensina, sem querer ensinar, que trabalho é uma coisa sagrada, que o desejo por algo só é real se somos duramente testados e que uma incrível força interna pode ser gerada na falta de suporte.

Desejo um pouco de Jiro em cada um de nós.

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Porquê a física quântica melhorou a minha produtividade.

 

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No mundo macro, repleto de planetas, estrelas, galáxias, tudo segue uma ordem decodificada por Sir Isaac Newton.

No século XX paramos de olhar para o alto e começamos a olhar pra dentro. Do que será que as coisas são feitas?

Descobriu-se, então, que as coisas são feitas de átomos, que são feitos de elétrons, nêutrons e prótons. E cada uma dessas micro partículas são feitas de partículas ainda menores, os quantuns.

Mas os cientistas queriam mais. E não pararam até descobrirem que os quantuns são, na verdade, minúsculas partículas de energia.

Energia.

Em última instância é disso que somos feitos.

A partir daqui quero contar como esse fato me ajudou a gerenciar melhor a minha produtividade.

É claro que o acúmulo de conhecimento ou uma boa gestão do tempo são fundamentais para uma vida produtiva, mas quero destacar o que para mim é o grande segredo da produtividade. Se você fizer apenas essa coisa bem feita, garanto que vai sentir uma diferença brutal na sua vida.

Meu ponto é: cultivar um bom nível de energia é o que existe de mais importante para a sua produtividade.

O que tira a sua energia.

Temos uma ideia errada a respeito do que é produtividade. As pessoas acham que produtividade é a capacidade de preencher o dia com diversos tipos de atividades. Quanto mais atividades, mais produtivo.

Costumamos misturar atividades de diferentes níveis de importância como ler e-mails, pequenas reuniões e checagens regulares das redes sociais com brainstorms ou momentos para resolução de problemas complexos.

Qualquer atividade, por menor, mais insignificante que pareça, faz a sua barrinha de energia baixar.

Veja o que diz o escritor e conferencista Todd Henry (Assista também a sua palestra no TED) no livro “Quando ser brilhante quando mais importa”:

“Temos a tendência de dividir a nossa vida em compartimentos, costumamos usar termos como “vida profissional” e “vida pessoal” como se a gente pudesse assumir outra identidade enquanto transitamos entre elas. Cada área de nossa vida é interligada, portanto é impossível realizar uma tarefa numa esfera sem que isso não afete a outra esfera. A energia que concentramos no trabalho não pode ser igualmente concentrada num projeto pessoal, pois a energia é um bem finito.”

Parece óbvio mas a gente esquece que ter disponibilidade de tempo não significa ter a mesma disponibilidade de energia.

Olha o que o Todd diz nessa outra parte:

“Quando, inconscientemente, acumulamos atividades não relacionadas numa semana onde supostamente precisaríamos ter ideias boas para um importante projeto do trabalho, tal comportamento drena a nossa energia e fragmenta o nosso foco. Isso vale para compromissos pessoais também. A gente acaba perdendo insights críticos que nos levaria a chegar à ideias brilhantes apenas porque estamos operando abaixo da nossa capacidade máxima”.

Percebi que isso era verdade na minha própria vida, pois sempre achei que quanto mais fazia, mais lia, mais estudava, mais pesquisava e em mais coisa me metia, mais combustível criativo acumularia. Na prática isso não se provou verdadeiro pois, no final, esse grande volume de atividades drenava completamente a minha energia, principalmente nos momentos onde eu mais precisava dela.

O que acontece é que cada coisa que você realiza exige mais de você do que apenas o seu tempo.

A dica prática é essa: quando estiver num projeto importante no trabalho, desacelere com os compromissos ou projetos pessoais. Se tiver num momento importante na vida pessoal, tente de alguma forma não se afogar no trabalho.

A zona de maior produtividade.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar o processo do cultivo de vinhas sabe o quanto a poda vinífera é fundamental para a parreira produzir seus melhores frutos. Só que não é uma poda comum. A poda nos vinhedos acontece tirando todo fruto novo que brota pelos galhos.

O que parece ser algo totalmente contra intuitivo acontece para que todos os nutrientes se concentrem nos galhos antigos garantindo que esses sejam capazes de produzir as melhores uvas. Se a parreira toda produz cachos por todos os lados o resultado são uvas ruins, com pouco açúcar para produção de vinhos.

Na nossa vida produtiva o princípio é o mesmo.

O segredo para uma vida produtiva é podar aquilo que vai prejudicar as suas prioridades, mesmo que essas coisas “extras” despertem o seu interesse.

Esqueça a cafeína e o redbull. Os seus momentos de maior produtividade são aqueles onde você consegue preservar a sua energia e escolher onde deve gastá-la.

 

 

 

Ouvir nãos: uma das mais importantes disciplinas criativas.

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Costumo dizer que o criativo de agência e o vendedor de balas nos semáforos são as profissões-que-mais-escutam-nãos do mundo.

Estreamos na profissão escutando nãos. Isso porque geralmente começamos com um portfolio muito ruim e levamos pauladas por onde passamos. São nãos que constroem caráter.

Depois, vindo de baixo, temos uma hierarquia toda de nãos pela frente. Começando pelos criativos mais experientes, que detonam nossas ideias, passando pelo diretor de criação que as massacram, pelo atendimento que as desprezam, chegando ao cliente que as ridicularizam.

Isso tudo vai criando uma casca na gente. E quanto mais tempo passa mais a gente estranha a fama de estrela que o profissional de criação tem. Estrelas não aceitam nãos.

O que no começo machucava, com o tempo vai calejando. E a gente vai entendendo que ter uma ideia rejeitada faz parte do processo de ter uma (boa) ideia aprovada.

Os nãos são as melhores formas de afiar critérios.

Se você acha que tudo o que você faz  faz é genial é porque você nunca teve amigos de verdade. No processo criativo para se ter uma ideia brilhante é preciso se ter várias medíocres. Afinal, uma boa ideia só é reconhecida como boa se puder ser comparada com várias ruins. Nesse quesito, receber nãos é um processo pedagógico.

Os nãos mantém os nossos pés no chão.

Eles funcionam para nos lembrar de que não somos geniais sempre. E também para nos lembrar que quem se apega muito a uma ideia é que deve ter pouca. Quem não entende isso fica com a síndrome do gênio incompreendido. E vira o chato que ninguém suporta trabalhar junto.

A capacidade de superar frustrações é o que transforma você de júnior em sênior.

Uma das maiores virtudes criativas é saber lidar com as frustrações. É ter uma ideia reprovada, levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima (desculpe, não resisti).

Até porque ouvir um não é inevitável nessa profissão. Algumas das melhores ideias que eu já tive só surgiram porque as primeiras levas foram rejeitas e só assim eu pude ir cavar mais fundo e encontrar coisas realmente novas e surpreendentes.

Ouvir nãos deixa a gente mais humilde, mais consciente, mais preparado. Ouvir nãos deixa a gente mais cascudo, é como uma vacina que vai deixando a nossa imunidade cada vez mais alta. Ouvir nãos e voltar mais forte é o que vai fazendo, gradualmente, a gente transformar o Jr. depois do nome do nosso cargo em Sr.

Grandes ideias são frágeis.

300_Wallpaper copyDove ganhou o Grand Prix no festival de Cannes esse ano. A ideia nada mais é do que um vídeo pro Youtube.

O vídeo se divide em dois momentos. No primeiro, uma mulher numa sala descreve-se para um profissional de retrato falado que está atrás de uma cortina. Eles não se veem.

Num segundo momento, uma outra mulher é convidada para descrever essa que acabou de se auto descrever para o retratista.

A ideia é mostrar a diferença entre os dois retratos falados. O que a mulher se auto descreveu é geralmente mais feio do que o retrato que a desconhecida a descreveu.

A campanha é sobre real beleza. A bandeira da marca Dove.

E eu tenho uma lista de motivos para dizer porque essa ideia não deveria ter saído do papel. Aqui vão alguns:

– Mulheres têm inveja umas das outras. Nunca uma mulher descreveria outra reparando nos seus pontos positivos. Pelo contrário.

– Por que alguém gastaria numa produção comercial que não fala de produto? Onde entra Dove nessa história?

– Quem garante que esse vídeo não é uma armação? É uma risco muito grande para uma marca ter sua reputação ameaçada numa ação como essa.

– Trata-se de uma ação machista, pois rotula a mulher como superficial e interessada apenas na aparência física.

– Vídeos para o Youtube devem ser curtos, ninguém vê vídeo com mais de dois minutos e esse tem quase sete.

Juro que se eu pensar mais um pouquinho dá pra arranjar mais meia dúzia de motivos chulos.

Todos fáceis, superficiais, covardes e burros. E todos capazes de derrubar uma grande ideia.

Grandes ideias são frágeis. E por isso precisam de proteção.

Quando você julgar ter uma grande ideia, pense na melhor forma de protegê-la. Uma grande ideia precisa das melhores e mais influentes mentes para essa missão.

Por isso que uma das mais importantes tarefas de um dirigente de agência é vender as grandes ideias do seu time.

Lembra daquela história de que bater penalti em final de campeonato é tão importante que o presidente do Clube deveria bater?

É que não adianta nada ter um time de talentos capaz de conceber coisas incríveis se no final, na hora de aprovar, a agência não tiver o mesmo talento.

Porque  agência criativa é a que aprova coisas criativas. E se ela não estiver mobilizada para defender suas melhores ideias com seus melhores soldados, é como nadar, nadar, nadar e morrer na praia.