Arquivo da tag: criatividade

Grandes ideias são frágeis.

300_Wallpaper copyDove ganhou o Grand Prix no festival de Cannes esse ano. A ideia nada mais é do que um vídeo pro Youtube.

O vídeo se divide em dois momentos. No primeiro, uma mulher numa sala descreve-se para um profissional de retrato falado que está atrás de uma cortina. Eles não se veem.

Num segundo momento, uma outra mulher é convidada para descrever essa que acabou de se auto descrever para o retratista.

A ideia é mostrar a diferença entre os dois retratos falados. O que a mulher se auto descreveu é geralmente mais feio do que o retrato que a desconhecida a descreveu.

A campanha é sobre real beleza. A bandeira da marca Dove.

E eu tenho uma lista de motivos para dizer porque essa ideia não deveria ter saído do papel. Aqui vão alguns:

– Mulheres têm inveja umas das outras. Nunca uma mulher descreveria outra reparando nos seus pontos positivos. Pelo contrário.

– Por que alguém gastaria numa produção comercial que não fala de produto? Onde entra Dove nessa história?

– Quem garante que esse vídeo não é uma armação? É uma risco muito grande para uma marca ter sua reputação ameaçada numa ação como essa.

– Trata-se de uma ação machista, pois rotula a mulher como superficial e interessada apenas na aparência física.

– Vídeos para o Youtube devem ser curtos, ninguém vê vídeo com mais de dois minutos e esse tem quase sete.

Juro que se eu pensar mais um pouquinho dá pra arranjar mais meia dúzia de motivos chulos.

Todos fáceis, superficiais, covardes e burros. E todos capazes de derrubar uma grande ideia.

Grandes ideias são frágeis. E por isso precisam de proteção.

Quando você julgar ter uma grande ideia, pense na melhor forma de protegê-la. Uma grande ideia precisa das melhores e mais influentes mentes para essa missão.

Por isso que uma das mais importantes tarefas de um dirigente de agência é vender as grandes ideias do seu time.

Lembra daquela história de que bater penalti em final de campeonato é tão importante que o presidente do Clube deveria bater?

É que não adianta nada ter um time de talentos capaz de conceber coisas incríveis se no final, na hora de aprovar, a agência não tiver o mesmo talento.

Porque  agência criativa é a que aprova coisas criativas. E se ela não estiver mobilizada para defender suas melhores ideias com seus melhores soldados, é como nadar, nadar, nadar e morrer na praia.

Anúncios

Marketshare não nasce em árvore.

Imagem

Tem analogias que são boas demais para não serem reproduzidas.

Em seu livro Predatory Thinking, Dave Trott conta a história de um exímio atirador de baterias anti-aéreas da segunda guerra chamado Robert Stanford-Tuck .

A história se passa quando a Itália decidiu se aliar a Alemanha para tirar algum proveito da divisão dos supostos futuros despojos de guerra.

Mussolini queria mostrar pra Hittler que era bom de briga e decidiu bombardear a Inglaterra.

As baterias de Robert Stanford-Tuck estavam preparadas para a batalha, mas foram surpreendidos não por velozes aviões carregados de bombas como os dos Alemães, mas por lentos bi-motores precariamente armados da Squadra Azzurra.

Não é preciso muito pra adivinhar o desfecho desse episódio.

Pois bem, Robert costumava querer ver de perto os aviões abatidos depois das batalhas. E nesse caso o sentimento foi um misto de consternação e culpa.

Os aviões, além de pouco armados, tinham cabines espaçosas e cheias de vinhos, queijos e salames.

A impressão foi que os italianos não estavam indo para uma guerra, mas para um piquenique.

Tudo para dizer o seguinte: quando vejo a maioria das campanhas que estão no ar no mercado brasileiro, vejo, na verdade, a fúria da Força Aérea Italiana vindo ao meu encontro.

Estamos num mercado que é um pega pra capar. Mas nos comportamos como se estivéssemos no Magic Kingdom.

A praga do politicamente correto invadiu a zona de guerra que é a propaganda.

A gente esquece de verdades nuas e cruas como por exemplo a que se você quer crescer, o seu concorrente tem que diminuir.

Porque Marketshare não nasce em árvore.

Se quer aumentar o recall, a taxa de cliques, o engajamento, o lead, as ações de marketing do seu concorrente terão que ir mal. E elas irão mal porque a sua foi melhor. Simples assim.

Mas o que vejo são campanhas feitas pra agradar a maioria.

Tudo fofinho e nada muito polêmico.

Repetimos ações que foram bem sucedidas pensando que o sucesso já vem embutido nelas.

Mas também fazemos isso porque temos medo de errar.

Nesse mercado, se você quer atenção, outros vão ter que deixar de tê-la.

É preciso tomar partido, assumir riscos, lutar e entrar pra ganhar.

Ou vamos continuar sendo tão eficientes quanto a força aérea italiana.

Pense Pequeno

thinksmall3

O marketing na era digital é mesmo surpreendente.  Pequenas e singelas ações têm se revelado de grande eficácia em prol da imagem das marcas.

Algumas iniciativas simples como responder a uma carta, em alguns casos, estão repercutindo mais do que o comercial milionário ou o aplicativo engenhoso.

Recentemente a Lego recebeu uma carta de um garoto inglês de 7 anos que havia perdido um brinquedo da marca. A Lego respondeu ao menino de maneira lúdica e sensível, informando que iria presenteá-lo com o Lego perdido e alguns brindes extras. A carta pipocou pelas redes sociais – sim, uma simples carta – e ganhou destaque nos jornais do mundo inteiro. Iniciativas como essa tem um valor incalculável simplesmente porque o noticiário não está à venda.

Nos EUA, um usuário do Twitter tirou sarro dos carros da marca SMART dizendo que, de tão pequenos, um único cocô de pombo era capaz de sujar o carro inteiro. A Smart respondeu a crítica bem humorada com um infográfico comprovando que para que o Smart fosse coberto de cocô seriam necessários não um pombo, mas 4 milhões e meio (procure por “Poop Tweet”). Mais uma vez do Twitter para o noticiário.

No campo do desenvolvimento de sites e aplicativos, o conceito de micro interação tem se tornado essencial para a experiência do usuário. Dan Saffer, o designer especialista no assunto define: “Toda vez que você altera uma definição, sincroniza seus dados ou dispositivos, defini um alarme, escolhe uma senha, cria uma mensagem de status ou favorita algo, você acabou de realizar uma micro interação. A maioria dos devices de sucesso são construídos inteiramente em torno das micro interações”. Um exemplo óbvio é a Apple, que faz sucesso pelo design dos produtos mas especialmente pela grande experiência digital que promove, nos mínimos detalhes.

Empresas têm sido desafiadas a rever seus modelos de atendimento ao consumidor. Hoje, qualquer pequena crise pode se transformar em enormes problemas graças à amplificação que as redes sociais promovem. Serviços como o Reclame Aqui e o mais recente Boicota SP são a prova disso. Uma única resposta mal dada ou um atendimento mal feito pode causar grandes dores de cabeça, ao passo que uma resposta simpática, personalizada, pode ter o impacto que mil campanhas não teriam.

No aniversário de 40 anos da minha esposa eu fiz uma festa bacanérrima pra ela. Comprei um anel de brilhantes e encomendei um quadro do rosto dela com um artista badalado. Porém eu sei que o que faz a diferença em nosso relacionamento são, na verdade, as mensagens bobas que mando todos os dias pelo celular.

É assim no marketing, é assim na vida.

(Artigo publicado no portal Proxxima do Meio&Mensagem)