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Os deuses estão vendo

zeusPaul Jobs, pai de Steve Jobs, era, além de outras coisas, carpinteiro.

Uma de suas características era a total obsessão com seus móveis.

Talhava as encomendas à perfeição. Incluindo as partes invisíveis das peças.

As partes internas, os fundos, os miolos, o que para a maioria dos carpinteiros era secundário, Paul talhava com igual esmero.

Essa atenção aos detalhes impactou o jovem Steve.

Quem conhece sabe que além do design perfeito dos produtos Apple, as partes invisíveis ao grande público, como as placas internas dos computadores, são igualmente bem desenhadas.

O design da Apple é uma sinestesia onde produto e seu criador se fundem.

Steve que não estava no mercado para vender computadores, ganhar dinheiro e enriquecer acionistas. Steve só queria fazer a parada de um jeito que ele pudesse sentir orgulho.

É uma história rara. Ao contrário, vivemos num outro mundo. Fazemos parte de um circo do cacarejo, onde a tarefa só é importante se pode ser contabilizada, rentabilizada e depois cacarejada como uma galinha quando bota ovo.

Eu costumo ter minhas melhores ideias nos momentos pré-sono, no silêncio da minha cama, de olhos fechados, onde o telefone não toca e ninguém interrompe os meus pensamentos.

Como contabilizar essas horas?

Como viver num mercado que cobra de um ateliê a performance de uma fábrica?

Vivemos numa realidade onde é possível ter uma ideia genial em 5 minutos e uma ideia ruim em 8h. Olha que coisa, o cliente vai pagar mais caro por uma ideia ruim porque demorou mais tempo para ser elaborada.

É um paradoxo. Essa indústria quer moldar um estilo de vida do século XXI, de cultura digital, que produz arte e ciência, em um modelo de apertar parafuso numa linha de montagem.

Eu digo e repito. As coisas mais importantes feitas nesse negócio são as que são “incontabilizáveis” no timesheet. Não acontecem dentro dos escritórios, no horário comercial, entre cartões de ponto.

Seu esforço a mais pra melhorar o que quer que seja não será em vão. Aquelas horas que não tem mais ninguém no escritório para testemunhar seu esforço serão recompensadas. E a recompensa é a sua própria consciência.

Existiu um escultor grego que esculpia a parte de dentro das estátuas. Seus alunos não compreendiam a razão de tantas horas a mais de dedicação nas obras. Perguntado o por quê de esculpir a parte das estátuas onde ninguém via, o escultor respondeu: “os deuses estão vendo”.

 

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