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O que um velho Sushiman pode ensinar sobre trabalho, vocação e empreendedorismo.

Jiro

 

 

 

 

 

 

 

Gosto do Japão e da sua cultura. Parte desse gosto é porque lá as coisas são ao contrário. A leitura é da direita pra esquerda. O volante dos carros é no lado direito. Aqui é dia, lá é noite.

A forma como eles encaram a vida também é meio às avessas. Tudo o que a nós, ocidentais, enxergamos como algo ruim para eles pode, justamente, ser uma virtude.

O documentário de David Gelb, Jiro Dreams of Sushi (tem no Netflix), conta a história da vida do homem considerado o melhor sushiman do mundo. O nome dele é Jiro Ono e, à época do filme, tinha 85 anos. Seu restaurante, o Sukiyabashi Jiro, tem apenas 10 lugares, fica dentro de uma estação de metrô em Tóquio e é condecorado com três estrelas no conceituado Guia Michelin.

O filme é recheado de boas lições que acabam, sem querer, ensinando um monte de coisas sobre trabalho, vocação e empreendedorismo, mesmo que de um jeito totalmente não ortodoxo.

Não é vergonha ter reverência ao trabalho.

Somos de uma cultura que adora as sextas-feiras, reverência as férias, idolatra folgas e onde trabalho é sinônimo de chateação. Um mal necessário.

Olha que engraçado: o Jiro detesta feriados.

Segundo ele não existe nada mais entediante do que ficar longe do seu balcão.

Jiro não é workaholic.

Na realidade ele tem uma extrema reverência ao trabalho. E isso não tem a ver com vaidade, dinheiro ou poder.

O fato é que ele desenvolveu um amor tão profundo e verdadeiro pelo seu ofício, que ser sushiman é parte de quem ele é.

Ter orgulho do trabalho é ter orgulho de si mesmo.

Tem certeza mesmo?

Os dois filhos de Jiro também são sushiman, apesar de o pai nunca ter obrigado os filhos a seguirem a sua profissão.

Os filhos de Jiro demoraram 10 anos para terem a permissão para preparar e servir seus primeiros sushis aos clientes do restaurante do pai. Sim, infindáveis10 anos. Durante esse tempo trabalharam como assistentes observando pacientemente o pai comprar, preparar e servir.

Ao observar o pai por 10 anos os filhos aprenderam muitas coisas. No melhor estilo Senhor Miyagi aprenderam que a paciência é uma virtude e que a prática leva à perfeição.

Porém, eles aprenderam uma lição muito mais valiosa nesses anos de espera.

Eles construíram dentro deles a certeza de suas vocações.

Só quem trabalha 10 anos como assistente tem certeza de que seguirá essa carreira para o resto da vida.

Vá e nunca mais volte.

Você já imaginou um pai dizendo isso a um filho quando esse resolve deixar a casa da família?

Jiro confessa que essa foi melhor coisa que o seu pai disse a ele quando ele resolveu sair de casa.

Foi muito duro não poder regressar, mas Jiro sabia que essa lição faria com que ele encarasse a vida de uma maneira totalmente diferente. Era matar ou morrer.

Esse acontecimento tem uma ligação profunda com o fato de Jiro ter se tornado o melhor sushiman do mundo. Isso fez com que ele entrasse na vida pra ganhar. Ele não tinha outra opção.

Fico imaginando como eu entraria num negócio ou numa empresa, se soubesse que não teria outra opção que não fosse a de prosperar.

Imagina a força interna que se cria quando se sabe que não terá mais a casa do pai para retornar se tudo der errado.

As pessoas querem ser bem sucedidas sem pagar o preço. Querem ser o Jiro sendo servidas pela mamãe no sofá da sala.

O Jiro nos ensina, sem querer ensinar, que trabalho é uma coisa sagrada, que o desejo por algo só é real se somos duramente testados e que uma incrível força interna pode ser gerada na falta de suporte.

Desejo um pouco de Jiro em cada um de nós.

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Porquê a física quântica melhorou a minha produtividade.

 

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No mundo macro, repleto de planetas, estrelas, galáxias, tudo segue uma ordem decodificada por Sir Isaac Newton.

No século XX paramos de olhar para o alto e começamos a olhar pra dentro. Do que será que as coisas são feitas?

Descobriu-se, então, que as coisas são feitas de átomos, que são feitos de elétrons, nêutrons e prótons. E cada uma dessas micro partículas são feitas de partículas ainda menores, os quantuns.

Mas os cientistas queriam mais. E não pararam até descobrirem que os quantuns são, na verdade, minúsculas partículas de energia.

Energia.

Em última instância é disso que somos feitos.

A partir daqui quero contar como esse fato me ajudou a gerenciar melhor a minha produtividade.

É claro que o acúmulo de conhecimento ou uma boa gestão do tempo são fundamentais para uma vida produtiva, mas quero destacar o que para mim é o grande segredo da produtividade. Se você fizer apenas essa coisa bem feita, garanto que vai sentir uma diferença brutal na sua vida.

Meu ponto é: cultivar um bom nível de energia é o que existe de mais importante para a sua produtividade.

O que tira a sua energia.

Temos uma ideia errada a respeito do que é produtividade. As pessoas acham que produtividade é a capacidade de preencher o dia com diversos tipos de atividades. Quanto mais atividades, mais produtivo.

Costumamos misturar atividades de diferentes níveis de importância como ler e-mails, pequenas reuniões e checagens regulares das redes sociais com brainstorms ou momentos para resolução de problemas complexos.

Qualquer atividade, por menor, mais insignificante que pareça, faz a sua barrinha de energia baixar.

Veja o que diz o escritor e conferencista Todd Henry (Assista também a sua palestra no TED) no livro “Quando ser brilhante quando mais importa”:

“Temos a tendência de dividir a nossa vida em compartimentos, costumamos usar termos como “vida profissional” e “vida pessoal” como se a gente pudesse assumir outra identidade enquanto transitamos entre elas. Cada área de nossa vida é interligada, portanto é impossível realizar uma tarefa numa esfera sem que isso não afete a outra esfera. A energia que concentramos no trabalho não pode ser igualmente concentrada num projeto pessoal, pois a energia é um bem finito.”

Parece óbvio mas a gente esquece que ter disponibilidade de tempo não significa ter a mesma disponibilidade de energia.

Olha o que o Todd diz nessa outra parte:

“Quando, inconscientemente, acumulamos atividades não relacionadas numa semana onde supostamente precisaríamos ter ideias boas para um importante projeto do trabalho, tal comportamento drena a nossa energia e fragmenta o nosso foco. Isso vale para compromissos pessoais também. A gente acaba perdendo insights críticos que nos levaria a chegar à ideias brilhantes apenas porque estamos operando abaixo da nossa capacidade máxima”.

Percebi que isso era verdade na minha própria vida, pois sempre achei que quanto mais fazia, mais lia, mais estudava, mais pesquisava e em mais coisa me metia, mais combustível criativo acumularia. Na prática isso não se provou verdadeiro pois, no final, esse grande volume de atividades drenava completamente a minha energia, principalmente nos momentos onde eu mais precisava dela.

O que acontece é que cada coisa que você realiza exige mais de você do que apenas o seu tempo.

A dica prática é essa: quando estiver num projeto importante no trabalho, desacelere com os compromissos ou projetos pessoais. Se tiver num momento importante na vida pessoal, tente de alguma forma não se afogar no trabalho.

A zona de maior produtividade.

Quem já teve a oportunidade de acompanhar o processo do cultivo de vinhas sabe o quanto a poda vinífera é fundamental para a parreira produzir seus melhores frutos. Só que não é uma poda comum. A poda nos vinhedos acontece tirando todo fruto novo que brota pelos galhos.

O que parece ser algo totalmente contra intuitivo acontece para que todos os nutrientes se concentrem nos galhos antigos garantindo que esses sejam capazes de produzir as melhores uvas. Se a parreira toda produz cachos por todos os lados o resultado são uvas ruins, com pouco açúcar para produção de vinhos.

Na nossa vida produtiva o princípio é o mesmo.

O segredo para uma vida produtiva é podar aquilo que vai prejudicar as suas prioridades, mesmo que essas coisas “extras” despertem o seu interesse.

Esqueça a cafeína e o redbull. Os seus momentos de maior produtividade são aqueles onde você consegue preservar a sua energia e escolher onde deve gastá-la.

 

 

 

O dia em que a biotecnologia resolveu um problema de marketing.

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Imagine o seguinte briefing.

Problema: o rinoceronte negro africano está à beira da extinção. Restam apenas 5 mil animais, cerca de 4% da espécie. E por que? Porque seus chifres valem verdadeiras fortunas no mercado negro.

Desafio: criar uma campanha pelo fim da caça ilegal de rinocerontes negros na África.

O que você faria?

O bio engenheiro Chuck Murry da Universidade de Washington criou o Black Rhinos Genoma Project.

 O maior projeto de antimarketing que eu já ouvi falar.

Funciona assim. O professor Chuck vai decodificar o genoma dessa espécie de rinoceronte e criar chifres artificiais em laboratório.

A ideia é produzir centenas de milhares de exemplares e inundar o mercado negro africano deles.

E como o exemplar artificial é geneticamente idêntico a um chifre real fica impossível saber qual é qual.

Como qualquer mercado é regido pela lei da oferta e da procura, espera-se que o aumento da oferta faça baixar drasticamente o preço do produto, desestimulando a caça ilegal.

Genial é pouco.

Esse ideia é a prova de que nem tudo se resolve com propaganda. No Black Rhino Project não se estudou o público alvo e seu comportamento, nem se fez um comercial emotivo que teria a eficácia de um murro em ponta de faca.

Tem uma frase atribuída a Einstein (e que alguém atribuiu só pra frase ganhar peso) que diz que insanidade é esperar resultados diferentes fazendo a mesma coisa.

Essa ideia trouxe um resultado diferente através de uma coisa totalmente nova. E repousa magnificamente na intersecção da criatividade e da tecnologia.

Quem em sã consciência poderia dizer um dia que a biotecnologia poderia resolver um problema de mercado?

Estamos entrando na era do “cross knowledge”, onde ciências distintas se fundem com a criatividade atrás de soluções.

Uma era onde a tecnologia aproxima cada dia mais o ato de imaginar do ato de fazer.

Estamos entrando na era do “cross knowledge”, onde ciências distintas se fundem com a criatividade atrás de soluções.

Uma era onde a tecnologia aproxima cada dia mais o ato de imaginar do ato de fazer.

Guia rápido de sobrevivência para líderes Não-Y.

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Um jovem designer entra na minha sala e pede demissão. E aí, tá indo pra onde, perguntei. Ele manda: pro mundo.

Esse carinha largou seu emprego para viajar de carro pelo país com a namorada. Justo.

Sim, ele faz parte da geração Y ou Millenials, indivíduos nascidos mais ou menos entre os anos 1990 e os anos 2000 e que, agora, estão entrando no mercado de trabalho.

Quando percebi que andava reclamando muito dos Y, percebi também que estava ficando velho. Nada mais clichê do que uma geração falar mal da outra.

Li também dezenas de ótimos textos, em publicações como Fast Company, que faziam críticas a essa geração. Textos com um tom de esperança de que algum Y lesse o artigo e mudasse de comportamento. O problema é que os leitores desses artigos sãona maioria não Y. E os artigos sempre apontavam os problemas mas não davam caminhos.

Esse artigo é a minha tentativa de entender os caras. É um texto mais para mim do que para qualquer pessoa.

Reuni nesse breve guia um mix de percepções e experiências pessoais como gestor de Y’s por vários anos, somadas às referências de um livro muito bacana que trata dessa questão e se chama: The XYZ Factor – The DoSomenthing.org Guide to Creating a Culture of Impact.

A primeira constatação foi: essa galera nasceu num mundo diferente do meu.

Então, se eles são diferentes (meus amigos diriam mimados, descompromissados, egocêntricos e prepotentes) não é exatamente culpa deles.

Nasci em 1978. Esse meu mundo tinha 5 canais de TV. No supermercado, tínhamos a árdua tarefa de escolher entre duas ou três marcas. Comprar roupa, carro, até jogar videogame: Riveraid ou PacMan?

A geração Y nasceu num outro mundo. Nasceram na era da ultra diversificação.

Ironicamente, num universo de centenas de canais de TV, surge o YouTube e a moçadinha simplesmente não assiste mais televisão.

E mais, hoje, se o que eles querem não existe, eles mesmo criam. Cada um é uma emissora de si mesmo.

Portanto, nem sempre se trata de desapego ou falta de compromisso. Mas pode ter a ver com buscar o que melhor se encaixa diante de um universo de opções. Foi assim que eles foram criados.

Para um Y o mundo é instantâneo como um Miojo.

Não muito tempo atrás a vida era analógica. O que significa que tudo andava com as limitações do mundo físico. Imprimir, aprovar, assinar, carimbar, dias, meses.

Essa galera já nasceu num mundo de cultura digital. É um jogo diferente.

Não culpe os caras pela pressa. Um Y foi moldado pela instantaneidade. Se querem ouvir música, ouvem streaming. Se querem comprar, dão OneClick-to-buy. Não cozinham, usam micro ondas. Sentem-se ignorados se uma resposta leva mais de 1 minuto no whatsapp. Não tem jeito, está no DNA.

É importante mostrar para um Y que nem tudo acontece na velocidade do clique. Que ele não vai virar presidente da empresa em 6 meses. Que as coisas levam tempo.

Mas, é importante criar um dinamismo corporativo diferente para essa nova geração. Crie novas funções, dê novos desafios, mude de grupo de trabalho, troque de clientes.

Um Y precisa sentir que a sua carreira está em movimento constante.

A procura de sentido.

A geração dos meus pais e avós tem aquela visão bem tradicional sobre trabalho onde carreira é sinônimo de sustento, estabilidade e status. A minha geração ainda tem um resquício desse pensamento.

Um Y pensa completamente diferente. Trabalho se funde com diversão. Hobby e profissão podem ser a mesma coisa.

Acima de tudo, um Y vai passar a vida buscando um lugar onde as horas de trabalho sejam recheadas de sentido e significado.

Veja o caso da DoSomething.org, uma espécie de agência de publicidade Nova Iorquina sem fins lucrativos que tem a missão de engajar jovens em causas sociais. Possivelmente os salários na DoSomenthing.org são inversamente proporcionais ao quanto ela é desejada por Ys sedentos por empregos com significado.

Simon Sinek em seu livro “The Golden Circle” fala sobre a cultura das empresas mais bem sucedidas desse século como Nike e Apple. É impressionante como para elas o que importa não é o que elas fazem, mas por que elas fazem. Vale pena assistir a sua palestra no TED.

Uma vez um colega veio reclamar de uma tarefa mal executada por um Y da minha equipe. Perguntado por que ele tinha entregue daquela jeito, ele respondeu que havia entendido o que tinha que ser feito, mas não tinha entendido o por quê aquilo tinha que ser feito.

Um Y se sente motivado quando ele entende o por quê das coisas.

Eu acredito que toda tarefa, por mais braçal ou trivial que ela pareça, sempre tenha um sentido. O problema é que em geral os gestores têm certa preguiça para esse tipo de reflexão.

Encontre o significado das coisas, comunique com clareza e tenha um Y engajado.

Feedback preciso e constante são os combustíveis de um Y.

A internet nos deu algo sem precedentes: o feedback em tempo real. E um Y espera isso não apenas dos computadores, mas da vida.

Feedbacks anuais simplesmente não funcionam. Um Y precisa de um feedback, positivo ou negativo, na hora em que as coisas acontecem. Se o feedback estiver distante do fato ele perde o link emocional com o mesmo. Você já teve que educar filhote de cachorro quando faz xixi no lugar errado? Então.

Outra coisa, na hora de dar um feedback negativo, seja gentil, até porque feedback não é bronca, mas uma ferramenta essencial para o crescimento profissional de qualquer pessoa.

E, o mais importante, seja específico. A era da informação é precisa. Por exemplo, por causa do Waze, sabemos quantos minutos se levam para dirigir de Sapopemba até a Vila Madalena. Sabemos exatamente quantos seguidores temos no Instagram e quantos por cento está a evolução de um download segundo a segundo.

Por isso, quando for dar um feedback a um Y, não seja genérico do tipo “sinto que está desmotivado” ou “pessoas dizem que você é um cara difícil”. Um Y precisa saber quem, quando, como e onde. É preciso dar exemplos concretos. Sem isso o feedback vira um jogo de subjetividades e não cria oportunidades concretas para mudança, aprendizado e evolução.

Um jeito próprio de lidar com fracassos.  

No mundo dos games, quando você morre, começar de novo é tão simples quanto apertar um botão no controle. Lembre-se que um Y nasceu nesse contexto. É uma geração criada onde as coisas são sempre uma versão beta. É a cultura da tentativa e erro.

Portanto, um erro não deve produzir necessariamente uma punição como acontecia com a minha geração, mas deve servir como uma informação para gerar um ajuste e um aprendizado.

Vale lembra que no mundo corporativo contemporâneo, as empresas de maior sucesso são aquelas que criam um ambiente para riscos calculados. Até porque para inovar é preciso arriscar e só arrisca quem não tem medo de quebrar a cara.

Entretanto, porém, todavia, não estou dizendo que um Y não deva se responsabilizar por seus erros. A questão é como lidar com as falhas de um Y. Tenho a convicção de que um erro de um Y bem gerenciado pode se transformar em coisas positivas e surpreendentes. Eles têm facilidade de cair e levantar.

Ultra conexão e dispersão.

Estudos recentes da DoSomenthing.org dizem que um adulto americano de classe média consegue lidar 3 aparelhos ao mesmo tempo. É a tv ligada no jornal, portal de notícias num laptop e celular respondendo alguns e-mails.

Esse mesmo estudo diz que um Y consegue lidar com até 9 coisas ao mesmo tempo.

São múltiplas janelas de chats: Gtalk, Facebook Messenger, whatsapp, além de Snapchat, Twitter, Instagram, ao som do set personalizado do Spotify. Tudo isso com a tv ligada que para eles serve como um abajur multicolorido J

Esses caras tem um conceito diferente de foco e dispersão. Ao invés de achar que o Y não está trabalhando, mas se divertindo “na internet”, cobre responsabilidade e produtividade. Deixe ele estabelecer um estilo de trabalho e cobre compromisso com prazo, com assertividade e inovação.

A pior coisa que uma empresa pode fazer é bloquear as redes sociais. Até porque um Y sempre vai encontra uma maneira de se manter conectado.

Não proíba um Y de ficar na internet, porém faça ele perceber que as vezes é necessário se desconectar e focar para conseguir melhores resultados.

Vida privada e hierarquia. Esses estranhos.

 

As redes sociais esmagaram a noção de hierarquia e poder. Um tweet do Obama e da minha tia avó ocupam o mesmo espaço na timeline. Muitas vezes a postagem de um estranho consegue uma repercussão muito maior que a de um famoso. Essa noção de que todo mundo é igual e tem a mesma importância está instalada no sistema operacional de um Y.

Graças também às redes sociais, a noção de vida privada não existe para um Y. Dividir assuntos pessoais no trabalho e de trabalho no círculo pessoal é algo extremamente natural.

Não é raro no meio de uma reunião importante, repleta de peixes grandes, um Y fazer uma colocação descabida ou dar uma opinião sobre um assunto por puro enxerimento.

O problema é que a sociedade não é flat como o Facebook e hierarquia como existe hoje é algo que vai continuar existindo por um tempo. Quando um Y entra no mercado de trabalho ele entra também em rota de colisão com esse status quo.

Considerações finais.

Se você é líder de um Y, olhe para o negócio, para a sua empresa, para o seu time, e reflita se o modelo de trabalho é onde um Y pode melhorar performar, afinal, eles são a maioria da força de trabalho nos dias de hoje.

Faça essa auto reflexão: será que nossos modelos e processos não estão aprisionando talentos que tem uma relação totalmente diferente com os negócios e com a vida?

A Zappos, um dos maiores comércio eletrônico dos EUA adotou a Holocracy como modelo de gestão, onde cada funcionário vira chefe de si mesmo acabando com os cargos gerenciais. Tenho certeza que a maior parte dos funcionários da Zappos são Y.

Assim como não dá pra ser contra a lei da gravidade, é preciso aceitar o que não dá pra mudar. Ficar reclamando que essa geração é mimada e não tem responsabilidade não resolve o problema.

Reveja a sua estrutura, os seus processos e a forma como você faz gestão de pessoas. Passe mais tempo com um Y, ao invés de falar, escute-os. Se você não moldar a sua empresa para essa nova geração de profissionais é bem provável que você enfrente grandes dificuldades para atrair e reter talentos.

A teoria da evolução se aplica também no mercado de trabalho, onde não são os mais fortes, mas os mais adaptados que sobrevivem.

 Adapte-se enquanto é tempo. Ou você vai ser lembrado, numa mesa de bar cheia de Y, como aquele tio saudosista que contava sempre as mesmas histórias do passado e meia dúzia de piadas sem graça.

Ouvir nãos: uma das mais importantes disciplinas criativas.

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Costumo dizer que o criativo de agência e o vendedor de balas nos semáforos são as profissões-que-mais-escutam-nãos do mundo.

Estreamos na profissão escutando nãos. Isso porque geralmente começamos com um portfolio muito ruim e levamos pauladas por onde passamos. São nãos que constroem caráter.

Depois, vindo de baixo, temos uma hierarquia toda de nãos pela frente. Começando pelos criativos mais experientes, que detonam nossas ideias, passando pelo diretor de criação que as massacram, pelo atendimento que as desprezam, chegando ao cliente que as ridicularizam.

Isso tudo vai criando uma casca na gente. E quanto mais tempo passa mais a gente estranha a fama de estrela que o profissional de criação tem. Estrelas não aceitam nãos.

O que no começo machucava, com o tempo vai calejando. E a gente vai entendendo que ter uma ideia rejeitada faz parte do processo de ter uma (boa) ideia aprovada.

Os nãos são as melhores formas de afiar critérios.

Se você acha que tudo o que você faz  faz é genial é porque você nunca teve amigos de verdade. No processo criativo para se ter uma ideia brilhante é preciso se ter várias medíocres. Afinal, uma boa ideia só é reconhecida como boa se puder ser comparada com várias ruins. Nesse quesito, receber nãos é um processo pedagógico.

Os nãos mantém os nossos pés no chão.

Eles funcionam para nos lembrar de que não somos geniais sempre. E também para nos lembrar que quem se apega muito a uma ideia é que deve ter pouca. Quem não entende isso fica com a síndrome do gênio incompreendido. E vira o chato que ninguém suporta trabalhar junto.

A capacidade de superar frustrações é o que transforma você de júnior em sênior.

Uma das maiores virtudes criativas é saber lidar com as frustrações. É ter uma ideia reprovada, levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima (desculpe, não resisti).

Até porque ouvir um não é inevitável nessa profissão. Algumas das melhores ideias que eu já tive só surgiram porque as primeiras levas foram rejeitas e só assim eu pude ir cavar mais fundo e encontrar coisas realmente novas e surpreendentes.

Ouvir nãos deixa a gente mais humilde, mais consciente, mais preparado. Ouvir nãos deixa a gente mais cascudo, é como uma vacina que vai deixando a nossa imunidade cada vez mais alta. Ouvir nãos e voltar mais forte é o que vai fazendo, gradualmente, a gente transformar o Jr. depois do nome do nosso cargo em Sr.

Premiado e obsoleto

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Uma vez fui mostrar o portfolio na W/Brasil.

Era na época em que os portfolios se chamavam pastas. E se chamavam assim porque de fato eram pastas. Todas grandes, de couro e cheias de impressões coladas em papelão duro com cola spray.

Nunca vou me esquecer daquilo que vi na recepção da agência. Imagine um aquário gigante, abarrotado de prêmios que a agência acumulava ao longo dos anos.

Ao invés de prateleiras e troféus bem lustrados, havia essa caixa enorme de vidro com metais amontados uns sobre os outros.

O que era pra parecer um jeito despojado de se exibir, sem querer transmitiu uma verdade inconveniente: tudo o que a agência havia conquistado nas maiores premiações do mundo tinha se transformado, no exato momento da conquista, em passado.

Toda aquela tonelada de metais amontoados de fato não garantiu o sucesso futuro da W/ como agência independente, digo isso com uma certa melancolia. A agência foi incorporada pela McCann em 2010.

O que nos leva a algumas reflexões.

Prêmio é o reconhecimento do que passou. Ganhar prêmio não garante que você vá ganhar de novo.

Prêmio pode causar aquela falsa sensação de que se “chegou lá”. Algo absolutamente mortal para empresas que precisam viver se reinventando.

Glórias do passado não garantem glórias no futuro. O Washington inconscientemente sabia disso.

Os deuses estão vendo

zeusPaul Jobs, pai de Steve Jobs, era, além de outras coisas, carpinteiro.

Uma de suas características era a total obsessão com seus móveis.

Talhava as encomendas à perfeição. Incluindo as partes invisíveis das peças.

As partes internas, os fundos, os miolos, o que para a maioria dos carpinteiros era secundário, Paul talhava com igual esmero.

Essa atenção aos detalhes impactou o jovem Steve.

Quem conhece sabe que além do design perfeito dos produtos Apple, as partes invisíveis ao grande público, como as placas internas dos computadores, são igualmente bem desenhadas.

O design da Apple é uma sinestesia onde produto e seu criador se fundem.

Steve que não estava no mercado para vender computadores, ganhar dinheiro e enriquecer acionistas. Steve só queria fazer a parada de um jeito que ele pudesse sentir orgulho.

É uma história rara. Ao contrário, vivemos num outro mundo. Fazemos parte de um circo do cacarejo, onde a tarefa só é importante se pode ser contabilizada, rentabilizada e depois cacarejada como uma galinha quando bota ovo.

Eu costumo ter minhas melhores ideias nos momentos pré-sono, no silêncio da minha cama, de olhos fechados, onde o telefone não toca e ninguém interrompe os meus pensamentos.

Como contabilizar essas horas?

Como viver num mercado que cobra de um ateliê a performance de uma fábrica?

Vivemos numa realidade onde é possível ter uma ideia genial em 5 minutos e uma ideia ruim em 8h. Olha que coisa, o cliente vai pagar mais caro por uma ideia ruim porque demorou mais tempo para ser elaborada.

É um paradoxo. Essa indústria quer moldar um estilo de vida do século XXI, de cultura digital, que produz arte e ciência, em um modelo de apertar parafuso numa linha de montagem.

Eu digo e repito. As coisas mais importantes feitas nesse negócio são as que são “incontabilizáveis” no timesheet. Não acontecem dentro dos escritórios, no horário comercial, entre cartões de ponto.

Seu esforço a mais pra melhorar o que quer que seja não será em vão. Aquelas horas que não tem mais ninguém no escritório para testemunhar seu esforço serão recompensadas. E a recompensa é a sua própria consciência.

Existiu um escultor grego que esculpia a parte de dentro das estátuas. Seus alunos não compreendiam a razão de tantas horas a mais de dedicação nas obras. Perguntado o por quê de esculpir a parte das estátuas onde ninguém via, o escultor respondeu: “os deuses estão vendo”.